ASHINI: CELEBRAÇÃO DA ALTERIDADE NO CANTO DA DESPOSSESSÃO

 

Humberto Luiz L .de Oliveira - UEFS/NEC

 

Quand vous-mêmes Québécois français, en tant que minorité au Canada vous vous insurgiez, de plus en plus, contre les brimades et les entraves que vous considérez avoir subies de la part des anglophones, sur le plan de votre culture et de votre autonomie, avez-vous vous-mêmes respecté, ou êtes-vous prêts à respecter, celles des Indiens? (CAM, 1979, p. 178).

 

Ma résolution fut prise ce soir d’hiver au bord du lac Ouinokapau. J’entreprendrais le long voyage vers les réserves. J’irais plaider ma cause et celle des miens. L’exaltation m’envahit, joie immense, présence de toutes les merveilles accomplies. J’obtiendrais des Blancs qu’on nous concédat toutes le régions entre le lac Attikonak et les chutes Hamilton. Ce serait bien assez pour tout mon peuple! (Ashini, p. 38)

 

A Revolução Tranqüila surge como o momento em que, revisitando o pacto confederativo de 1867, busca-se reafirmar o caráter de sociedade distinta, mesmo se minoritária do Québec, assegurando-lhe garantias constitucionais da desativação do processo assimilatório implícito desde a conquista da Nouvelle France pelo Império Britânico. Este processo já se encontrava subjacente na própria formação do Canadá, na medida em que o pacto entre os parceiros de origem branco-européia que comungam do projeto econômico de construir uma civilização na América tendo por imagem especular a Europa, implicaria na exclusão do elemento autóctone do qual se apropriam não apenas de tecnologias[1] mas sobretudo dos territórios. (MORISSET, 1980).

Na região do Québec, será sobre os territórios de ocupação milenar pelos ameríndios que se fará a exploração dos principais recursos naturais, dentre eles a água que servirá de fonte para a geração da eletricidade através da construção de um dos maiores complexos hidrelétricos do mundo: Hydro-Québec. Dentre os povos mais atingidos, os Montagnais e os Attikemekw, ambos encaminhando-se para a sedentarização e a subproletarização na medida em que conheceriam, desde as décadas de quarenta e cinqüenta, as transformações econômicas implementadas pelo branco sobre suas terras: primeiro, com a exploração madeireira, depois, com o processo de industrialização (alumínio, sobretudo) e, por fim, com a construção de barragens hidrelétricas que eliminariam as possibilidades de os autóctones encontrarem sua sobrevivência econômica na tradição da caça e da pesca.(CHAREST, 1980).

Portanto, é quando o Québec e o Canadá, partilhando conjuntamente o sonho expansionista de conquistar e dominar o Grand Nord, -esse equivalente no imaginário canadense à Amazônia brasileira (pulmão do mundo, fonte inesgotável de todas as riquezas minerais, fonte de equilíbrio ecológico (MORISSET, 1980)-, é neste exato momento que Yves Thériault publica Ashini, uma narrativa impregnada de raro lirismo, protagonizada por um ameríndio da nação Montagnaise, que clama contra a despossessão imposta pelo branco-europeu, seja ele anglófono ou mesmo Québécois. Aliás, é sobre outro texto da despossessão, sobre Menaud Maître-Draveur, de Savard, (ÉMOND, 1988) que Thériault tecerá sua escritura, numa clara paródia ao chamado romance fundador da quebecidade.

Se é verdade que, nesta época, o Canadá já se inscrevia dentre as nações mais desenvolvidas do mundo, oferecendo um elevado padrão de vida aos seus cidadãos que assim se esqueciam de terem sido considerados até recentemente como os “negros-brancos da América”, por sua condição de pobres (NEPVEU:1993), no entanto, a pobreza era uma realidade que continuava a incomodar determinadas categorias ou grupos sociais, especialmente os Ameríndios que se viam alijados do ideal do progresso e confrontavam-se à desestruturação de sua cultura provocando um quadro de inquietantes indicadores sociais: desemprego, alcoolismo, violência conjugal e familiar, delinquência. (PETAWABANO:1995; MORTON:1994)

É bem verdade que se pode dizer que o herói thériaulsiano carrega as marcas de uma clara ocidentalização: ele próprio afirma desejar tornar-se um “messias”, na melhor tradição do cristianismo; o texto narrativo está estruturado em 14 capítulos, número duplo do cabalístico sete2; a narrativa está escrita em língua francesa. Pode-se afirmar ainda que a própria escritura é ocidental e, logo, ficaria distante de uma “realidade ameríndia” e, o que seria mais grave, ao levar seu herói à morte, o autor poderia estar duplicando as teorias que davam por certa a extinção lenta e progressiva dos povos ditos “primitivos”, que não resistiriam à inevitabilidade do “progresso”.(CLASTRES: 1982), além de uma base russoísta, que coloca em oposição o Selvagem( “essencialmente” Bom) e o Branco/civilizado (“corrompido pela sociedade”).

No entanto, Thériault não fez mais do que ancorar sua narrativa sobre bases ameríndias: se cada capítulo se basta a si mesmo, constituindo-se micronarrativas autônomas, mas que se conectam perfeitamente formando um todo, isto pode também indicar uma adesão do autor à cosmogonia ameríndia que tem como fundamento o Grande Círculo Sagrado da Vida e sua concepção da circularidade do mundo.(SIOUI, 1989). Assim pode ser lido o epílogo em que, morto, Ashini reencontra o mundo primordial, e ao lado do Grande Espírito, presencia o desdobrar dos acontecimentos, testemunha a degradação da vida ameríndia, mas pode também confortar-se com a esperança de ter lido no coração da sua filha o desejo de reintegrar-se à sua comunidade de origem.

 

Je vois aussi les entreprises des Blancs en mon pays. Et je vois la misère des Indiens. Et je mesure à leur grandeur exacte les puissances des Blancs, leurs villes, leurs industries, leurs barrages et leurs routes qui écorchent déjà ma forêt.

Et je ne peux plus douter maintenant que pour troquer leurs haillons pour les blousons de cuir luisant, pour habiter des maisons où nul vent d’hiver ne s’introduit, les Montagnais doivent à jamais renier ce qu’ils furent ou ce qu’ils pourraient être. (AS, p. 100)

 

Até mesmo o lirismo que impregna a narrativa thériaulsiana não encontraria seu fundamento na tradição ocidental, mas sim no imaginário ameríndio: é que, buscando primeiro comover para depois convencer, na linha da tradição indígena que ensina primeiro despertar as emoções para depois chamar à razão (BOUDREAU: 1993), Thériault constrói uma personagem que, num « eu » lírico, inunda a narrativa de uma linguagem que remete à poesia encantatória, logo, insere-se no plano da busca pela religação do homem ao Todo.

Thériault prefere oferecer ao leitor branco-europeu, destinatário da sua obra, uma narrativa na qual a personagem se coloca no mesmo patamar dos grandes libertadores da tradição cristã, ocidental. E, experiente contador de histórias, ele consegue seu objetivo: aos olhos do leitor mais exigente, Ashini pode ser entronizado mesma galeria onde se encontram Moisés ou o Cristo. Sua missão também lhe foi dada pelo maior dos Espíritos, o Tshe Manitout, o equivalente ao Espírito Santo cristão (DELÂGE: 1995) É que, numa clara estratégia política, o autor procurou tornar o Outro parecido ao Mesmo, eliminando algumas diferenças étnicas (CLASTRES:1982) para que, preso de simpatia, comovido, o leitor torne-se simpatizante da causa defendida por Ashini. E, com isto, Thériault não permitiria que sua personagem se torne presa de uma excessiva valorização da etnicidade que « [...]tend à essencialiser l’identité, à faire l’éloge de la différence[..] »(ROBIN, 1995, p.221).

E, contrapondo-se firmemente às ideologias ocidentais, Thériault faz o elogio de uma outra forma de liderança política: a chefia indígena, que encerra em si mesma o vazio do poder coercitivo: assumindo-se como chefe, Ashini não aufere disso nenhum benefício pessoal. Ao contrário, deve dar mostras de elevado senso de desprendimento. É por isso que, não tendo a quem presentear com objetos materiais ou com animais caçados, ele se oferece em sacrifício, em doação de si mesmo. E, assim, cumpre a última das três condições para o exercício da chefia, já que também ele é um “fazedor de paz” e é um bom orador (CLASTRES:1978,p.23) - e seu monólogo, isto é, todo o texto narrativo, é seu “discurso de circunstância”2.

Portanto, pode-se também considerar que, na melhor tradição do realismo, Thériault toma sua caneta e se coloca no papel de porta-voz daqueles que nesse período eram considerados como marginalizados ou periféricos, logo condenados à afasia social e, desta forma, « [...] Thériault donne voix aux nombreuses composantes d’une collectivité qui forme, sans doute, un pays mais qui forme aussi le monde- et qui forme un pays en formant le monde ».(BROCHU:1992,p.428)

Na verdade, é lícito afirmar que Thériault antecipa não apenas o nacionalismo ameríndio que se fortaleceria apenas a partir dos anos oitenta, mas também ele contribui para dar visibilidade e legitimação às reivindicações autóctones que, apenas nos anos setenta, passariam a dispor de uma literatura escrita.

Publicando Ashini, Yves Thériault mostra ao Canadá e ao Québec a sua recusa tanto à assimilação quanto ao separatismo, formas de intransigência política que seu humanismo repudiava. E com isso sua narrativa torna-na um verdadeiro canto de tolerância e de paz entre os homens, um grito de alerta contra as exacerbações do nacionalismo e, principalmente, um hino de celebração da alteridade.

 

 

Referências bibliográficas :

 

BOUDREAU, Diane. Histoire de la littérature amérindienne au Québec. Montréal: L’Héxagone, 1993.

BROCHU, André. Yves Thériault et le héros contredit. In(orgs) GALLAYS, François; SIMARD, Sylvain; VIGNEAULT, Robert. Le roman contemporain au Québec.(1960-1985) Archives des Lettres canadiennes. Québec: Fides, 1992, t 8.

CHAREST, Paul. Les barrages hydro-électriques en territoire montagnais et attikamekw: leurs

effets sur les communautés amérindiennes. Autochtones: Luttes et Conjonctures II. Recherches Amérindiennes au Québec. v 9, n. 4, 1980.

CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. Trad. Théo Santiago. São Paulo: Brasiliense, 1978.

_____. Arqueologia da violência. Trad. Carlos Eugênio M. de Moura. São Paulo: Brasiliense,1982.

DELEÂGE, Denis. Les principaux paradigmes de l’histoire amérindienne et l’étude de l’alliance Franco-amérindienne aux XVII et XVIIIe siècles. Revue Internationale d’études canadiennes. Québec, automne, v 12, 1995.

DUPUIS, Renée. La question indienne au Québec. Québec: Boréal, 1991.

ÉMOND, Maurice. Préface. In THÉRIAULT, Yves,.Ashini. Bibliothèque Québécoise, 1988

FANON, Frantz. Culture et racisme. Présence Africaine. Paris: Sorbonne, n 10, out, 1957

_____. Os condenados da terra.2 ed. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1978

HOBSBAWN, Eric. Nações e nacionalismo desde 1760. Trad por Maria Celia Paoli e Anna Maria Quirino. São Paulo: Paz e Terra, 1991.

MORISSET, Jean. Miroir indogène, reflet eurogène. Luttes et Conjonctures II. Recherches Amerindiennes au Québec. v 9, n. 4, 1980

MORTON, Desmond. Las tensiones de la abundancia. In (org.) BROWN, Craig. Historia Ilustrada del Canada. México: Fondo de cultura económica, 1994.

NEPVEU, Pierre. Poderes do Estrangeiro. In (orgs) AGUIAR, Flávio e LEITE, Lígia Schiappini. Literatura e História na América Latina. São Paulo: EDUSP, 1993

PETAWABANO, Bella et alli. Santé mentale et les Auctochtones au Québec. Québec: Gaëtan Morin,1995

ROBIN, Régine. Défaire les identités fétiches. In (org.) LETOURNEAU, Jocelyn. La question identitaire au Canada francophone.Québec; Les Presses de l’Université Laval,1994

SIOUI, Georges E. Pour une AutoHistoire Amérindienne.Québec: Les Presses de l’Université Laval, 1989.

THÉRIAULT, Yves,.Ashini. Bibliothèque Québécoise, 1988.



[1] A sobrevivência dos europeus no Canadá só se tornaria possível graças à incorporação de algumas técnicas básicas dos autóctones, notadamente: das raquettes para locomoção sobre a neve; das canoas de cortiça fáceis de carregar aos ombros nas grandes distâncias entre os lagos e os rios; a desidratação da carne animal, o pemmican, que podia ser armazenada durante muito tempo sem perder o teor alimentar, além das vestimentas feitas de peles de animais capazes de atenuar o rigor do frio no inverno gelado. Além do apoio do próprio ameríndio como guia fundamental nas vastidões do território da Nouvelle France.( RAY, 1994).

2 Segundo Georges E. SIOUI (1989:p.16), não é o sete, e sim “ Quatre est le chiffre sacré en Amérique. Il y a quatre directions sacrées, quatre couleurs sacrées, quatre races humaines, chacune avec sa vision sacrée, quatre âges de la vie humaine (enfance, âge adulte, vieillesse et,de nouveau, enfance) quatre saisons, quatre temps de jours,eux aussi sacrés,etc.[..]”

2 Na nossa análise, o texto narrativo de Ashini é uma paródia do discurso ameríndio, sobretudo do discurso de circunstância, o qual se caracteriza por uma grande liberdade da parte do orador, mas que tem um caráter performático inquestionável: feito para comover, persuadir, a palavra é indissociável do gesto e o orador deve ser capaz de exprimir sentimentos, provar sua capacidade inventiva e sobretudo, ter a habilidade para despertar a comoção do(s) ouvinte(s). (BOUDREAU: 1993, p.59).